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A
batalha da ilha do Como -
14/01/1964
Apresentam-se a seguir 4 textos, sobre a batalha
travada na ilha do Como:
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A ilha do Como - texto introdutório de Carlos
Fortunato
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Actividades ao sul do Geba - texto de Hélio Felgas
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Op. Tridente (Ilha do Como, 1964) - testemunho de Mário Dias
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Operação Tridente - testemunho de Alpoim Calvão
A ilha do Como -
texto introdutório Carlos Fortunato

A
ilha do Como e a operação Tridente no livro escolar do PAIGC (1)
Como se pode verificar pelo texto apresentado
no livro escolar, a ilha do Como assume um papel destacado
entre os símbolos da luta do PAIGC, devido à Operação Tridente ai realizada no
principio de 1964, a qual tinha por objectivo a reocupação da ilha pelas tropas
portuguesas.
Embora sob o ponto
de vista militar da estratégia militar ilha não tivesse importância, sob o ponto
de vista politico a visão já era diferente, pois representava uma zona libertada
para o PAIGC.
A versão referida no livro escolar do PAIGC, descreve o resultado
final como "a tropa vencida fugiu", era a sua versão para propaganda,
na verdade a ilha não possuía forças militares portuguesas quando o PAIGC a
ocupou, e após a "Operação Tridente", a ilha estava sobre
controlo das NT, e tinha agora um aquartelamento
instalado em Cachil.
A operação iniciada a 14/01/1964, teve como resultado uma pesada derrota para
o PAIGC, não só pela perda do controlo da ilha, mas também pelos 76 mortos (confirmados), 29 feridos e 9 prisioneiros,
no entanto este nunca admitiu tal derrota, pelo contrário tentou sempre
manipular os factos, e considerou o fim da operação, como a derrota das NT.
Esta versão para
propaganda tornou-se a versão oficial do PAIGC, e nem mesmo em recente livro
Aristides Pereira, antigo secretário-geral do PAIGC, apesar de desligado do
partido, altera a versão oficial do mesmo:
"A resistência
tenaz dos guerrilheiros e as perdas humanas e materiais obrigaram as tropas
coloniais a abandonar a ilha do Komo"
Fonte: livro "Uma
luta, um partido, dois países", Aristides Pereira, Noticias Editorial, 2002
As nossas forças
terrestres envolveram nesta operação cerca de 1000 a 1200 homens, com forte
presença de forças especiais dos fuzileiros, comandos e páras.
Comandante das
Forças Terrestres era o tenente coronel Fernando Cavaleiro (Comandante do
Batalhão de Cavalaria 490).
A marinha deu
apoio à operação com uma fragata, 10 lanchas, e mais algumas embarcações civis.
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1958 - PV-2 Harpoon na base do
Montijo, na altura era utilizado para intercepção e vigilância marítima.
Devido à pressão dos EUA, apenas deram apoio esporádico
na Guiné e em Angola. Leva cinco metralhadoras
fixas 0.50 localizadas no nariz, sendo duas na parte superior e três na parte
inferior, duas 0,50 numa torre dorsal, duas 0,50 na torre ventral, oito foguetes
HVAR de 5 polegadas montados em cabides sob as asas, e capacidade para até 1.815
Kg de bombas (2) |
O F-86 Sabre
foi um avião de combate subsónico desenvolvido pelos EUA a seguir à
Segunda Guerra Mundial, foi utilizado pelos EUA na Coreia contra os MIGs
15.
Devido à pressão dos EUA, apenas deram apoio esporádico
na Guiné Chegaram a Portugal
em 1958. Leva 6 metralhadora 0,50 pol., 2 mísseis ar-ar ou 2.000 Kgs de
bombas (3) |
A Força Aérea
Portuguesa, teve igualmente um papel importante nesta operação, fazendo centenas
de saídas em apoio às forças terrestres, para tal contou com os aviões T6, F86,
PV2 e PV2-5 (Apoio de combate), dos helicópteros Alouette II (transporte e
evacuações), e dos aviões Auster e Dornier (transporte e reconhecimento).

Guerrilheiros do PAIGC na ilha do Como, foto do livro escolar do PAIGC (1)
O PAIGC possuía na ilha cerca de 300 guerrilheiros bem armados, a comanda-los
estava um dos seus mais prestigiados combatentes, Nino Vieira. Apesar da
evidente inferioridade de meios da guerrilha face aos envolvidos pelas NT,
estes tinham a seu favor o conhecimento do terreno, e a protecção que este lhes dava,
a qual souberam aproveitar, oferecendo uma
forte resistência inicial.
No início a
batalha foi muito dura e a progressão lenta, sofrendo as nossas forças algumas
baixas, para além disso as dificuldades com a alimentação, criaram problemas
adicionais, mas ao fim de 71 dias a ilha estava sobre o total controlo das NT,
contudo a "conquista" tinha custado 8 mortos e 15 feridos.
O controlo da ilha
foi temporário, pois terminada a operação as tropas retiraram, deixando um quartel em
Cachil, mas a guerrilha voltaria poucos
meses depois a
reforçar novamente as suas posições na ilha.
As densas matas da
Guiné transformavam estas num esconderijo perfeito, pois tornavam impossível, a
detecção e eliminação total da guerrilha.
Esta foi sem dúvida uma das mais longas batalhas
travadas na Guiné, que marcará a sua e a nossa história.
Actividades ao sul
do Geba - texto de Hélio Felgas
(1)
Apresenta-se a seguir um extracto do livro "Guerra
na Guiné" do coronel Hélio Felgas, sobre a ilha do Como, publicado em 1967, no qual o
autor dá uma visão global da operação, reflectindo a visão portuguesa dos
acontecimentos, embora o mesmo não tenha participado na operação.
"Algumas palavras nos merece a operação realizada
pelas forças portuguesas no princípio de 1964 contra a ilha do Como – que o
PAIGC considerava como “região libertada” e onde dispunha de uma “guarnição”
composta por elementos escolhidos e bem armados e municiados.
Situada a sudoeste de Catió, a ilha de Como engloba também as de Caiar e Catunco.
Por falta de efectivos e também porque, além de produzir algum arroz, pouca
importância tem - a ilha não dispunha de qualquer força militar.
O PAIGC aproveitou esse facto para nela instalar um acampamento (normalmente
designado por «base») que, além de actuar como centro de reabastecimento servia
também para a instrução dos novos elementos terroristas.
A presença do PAIGC na ilha de Como era por nós conhecida não só porque
elementos inimigos flagelavam por vezes os nossos barcos no rio Cobade (que
separa a ilha da península de Catió), como também porque em reconhecimento
efectuado pelos nossos soldados, os bandoleiros haviam reagido com certa
violência.
Mas talvez o que tivesse pesado mais na decisão de reocupar o Como - sem valor
militar, como dissemos - foi o facto de Amílcar Cabral ter apontado a ilha como
«área libertada que estaria sob completo controle do PAIGC”.
Não tendo o inimigo qualquer outra área da Guiné nestas condições parecia
necessário desalojá-lo da ilha e lá colocar uma força militar.
A operação foi levada a cabo por forças terrestres, aéreas e navais tendo a
natureza do terreno constituído adversário mais difícil para as tropas
portuguesas que o próprio inimigo. De facto, a ilha apresenta diversos maciços
florestais quase impenetráveis, rodeados por bolanhas pantanosas que se estendem
praticamente até ao mar. Desta forma a aproximação até às matas (onde os grupos
terroristas se encontravam escondidos) tinha de ser feito a peito descoberto. E
depois a penetração não oferecia menores dificuldades pelo menos até se
descobrirem os trilhos utilizados pelos guerrilheiros.
A resistência oferecida pelo adversário foi porém esporádica. Só raramente um
grupo ou outro revelou espirito combativo, logo aliás neutralizado pelo
comportamento corajoso dos nossos soldados. O normal foi a flagelação, a
emboscada, jamais a defesa a todo o custo desta ou daquela posição.
Para aqueles que esperavam do PAIGC uma resistência compatível com o
pretensiosismo manifestado nos comunicados onde o Como era anunciado como «área
libertada», a operação foi uma desilusão militar. Afinal PAIGC não defendeu
aquilo que já anunciava como sendo seu. Parece-nos porem que não seria de
esperar outra coisa. O papel dos grupos de guerrilhas não e outro senão atacar o
fraco e fugir do forte. Nada de grandes operações, resistências tenazes
empenhamentos difíceis. Seja no Como ou em qualquer outra parte.
Quando a operação foi dada por finda, o PAIGC já não se revelava apesar dos
nossos soldados cruzarem as matas em todos os sentidos. Muitos bandoleiros
haviam sido mortos e algum material apreendido. Mas a maior parte conseguira
fugir da ilha, apesar da vigilância dos nossos navios de guerra. E outros teriam
ficado escondidos nas próprias matas. Ninguém podia ter a pretensão de ter limpo
a ilha de terroristas nem de evitar que os fugidos regressassem novamente logo
que as tropas saíssem.
O resultado final foi francamente favorável para as forças portuguesas que mais
uma vez, haviam mostrado ao PAIGC serem capazes de desalojar os seus grupos
fosse de que área fosse. Além disso, como prova da nossa soberania, construímos
em Cachil um aquartelamento e aí deixámos uma guarnição com a missão de
patrulhar a ilha.
Claro que o PAIGC, actuando dentro da mais perfeita técnica subversiva logo
difundiu comunicados em que transformava a derrota dos seus grupos do Como em
retumbantes vitória. Em um destes comunicados, Amilcar Cabral afirmava que a
ilha fora atacada por 3000 soldados portugueses, os quais ao fim de três meses
de combate, haviam sido derrotados e postos em fuga. Além do comandante teriam
sido mortos centenas de soldados portugueses.
Na realidade, à parte do inevitável desgaste físico, as nossas tropas não
chegaram a ter meia dúzia de baixas. As indicadas no comunicado do PAIGC eram
superiores ao efectivo total empregue! E o comandante continua vivo e de boa
saúde. " (6)
Op.
Tridente (Ilha do Como, 1964) - testemunho de Mário Dias
Um excelente testemunho sobre o que se passou nesta
operação, é dado pelo furriel Mário Dias dos comandos, que participou nesta
operação, do qual apresentamos um extracto:
"...
1. A caminho
Ao princípio da noite de 14 de Janeiro de 1964, a fragata Nuno Tristão deixava
para trás o Ilhéu dos Pássaros e, dirigindo-se para a Ponta Oeste da Ilha de
Bolama, rumou a Sul.
A bordo, instalados como era possível, os elementos que formavam o Grupo de
Comandos (20 homens) escutavam atentamente as indicações (poucas) que o alferes
Saraiva, comandante do grupo, ia debitando. Ninguém sabia o que nos poderia
esperar no Como mas a boa disposição reinava e a confiança nas nossas
capacidades era grande.
A avaliar pelo aparato que tinha reinado na ponte-cais de Bissau durante o
embarque de tantas unidades militares, equipamentos, caixas, caixotes, cunhetes
de munições e demais tralha afanosamente encafuada, sem contar com as lanchas de
desembarque e alguns navios requisitados para o efeito cheios de pessoal e de
material que já haviam zarpado, pessoalmente eu antevia que não seria pêra doce.
Não foi fácil conciliar o sono. A expectativa era grande e grande era também uma
certa "raiva" por não nos ser dito exactamente qual a nossa verdadeira missão
nem os objectivos definidos o que, para quem não gosta de trabalhar às cegas,
constituía sério embaraço.
Sabíamos apenas que íamos desembarcar na Ilha do Como para a sua reocupação. Nem
ao menos nos foi dito por quanto tempo se estenderia esta missão pelo que não
levávamos connosco o indispensável para uma longa permanência, como acabou por
acontecer.
As manobras do "lançar ferro" da fragata acordaram-me. Devido à pouca
profundidade do mar, a Nuno Tristão ancorou um pouco longe de terra. Começaram
os preparativos da transferência das unidades que fariam parte da 1ª vaga de
assalto para as LDM.
Ao nascer do dia 15, surgiram os aviões de ataque ao solo ao mesmo tempo que as
peças de bordo e artilharia de Catió bombardeavam os locais de desembarque
cobrindo o avanço das tropas que iam ao assalto das praias para instalarem
testas de ponte que permitissem a chegada do grosso dos efectivos e instalação
da logística.
O Grupo de Comandos não fez parte desta 1ª vaga. Como disse o alferes Saraiva,
estávamos guardados para outras missões. Nem fazíamos uma pequena ideia de como
elas se viriam a revelar tão difíceis.
Estando, pois, a bordo da Nuno Tristão, encostado à amurada, fui acompanhando as
lanchas rumo à ilha, cuja vegetação em que dominavam as palmeiras, se recortava
no horizonte não muito distante. Os aviões largavam a sua carga mortífera, os
obuses de Catió flagelavam a parte da ilha junto ao canal que a separa do
continente. Na linha da costa mandavam as peças da Nuno Tristão e os “picanços”
dos aviões metralhando. Julguei-me num cenário do dia D na Normandia. Era
idêntico, salvas as devidas proporções.
Quando acabaram os fogos de apoio, começou a ouvir-se o crepitar de rajadas num
tiroteio impressionante. Muito ao longe, é certo, mas ouviam-se. De imediato
pensei: pronto, já chegaram. Vão conseguir? Haverá muitas baixas? A incerteza do
que se passava deixou-me muito mais nervoso do que se lá estivesse a combater.
Preferia ter ido com eles.
Suspiro de alívio quando soubemos que tinham conseguido e que o inimigo não
tinha oferecido muito resistência retirando-se para o interior da ilha. Era de
esperar. O PAIGC, certamente sabedor do que se iria passar, deve ter deixado
apenas alguns guerrilheiros junto à praia, só “para chatear”, instalando o
grosso do efectivo na densa mata do centro da ilha. As lanchas de desembarque
continuaram em sucessivas levas a transportar o pessoal embarcado na fragata
para terra, nesse dia e no seguinte.
2 – Fervet opus
Finalmente. Chegou a nossa vez. No bojo de uma LDM rumámos a terra. Alcançada,
baixada a rampa de desembarque, pisámos a areia do Como. Nada de tiros. O IN,
naquele local, já não mandava nada. Populações e guerrilheiros que se
encontravam na orla do mar já se haviam refugiado na densa mata do interior. Não
fora a azáfama da tropa e dos carregadores a amontoar caixas de ração de
combate, cunhetes de munições e de granadas, jericãs de plástico com água,
barris de vinho, grades de cerveja – que tanto jeito deu para compensar a
tremenda falta de água potável naquela ilha - não fora essa azáfama, e julgaria
estar numa paradisíaca ilha do Pacífico. Linda praia… local de sonho.
Rajadas, não muito longe, acordaram o meu devaneio. Era em Cauane, disserem,
onde se encontrava a CCAV 488 e o 8º Dest Fuz na tabanca que era o posto mais
avançado e próximo do IN e que viria a ser o local de maior resistência à nossa
penetração na mata. Era para lá que iríamos.
Enquanto na base logística, junto ao mar, se montavam as tendas de campanha que
serviriam de posto de primeiros socorros, sala de operações, instalações para o
comando e outras, se cavavam abrigos à volta do perímetro defensivo, se
instalavam postos de vigia, se abriam as indispensáveis latrinas, iniciámos a
marcha para Cauane.
Atravessado o palmar que bordejava a linha de costa, encontrámo-nos num terreno
bastante arenoso e com pouca vegetação, onde os pés se enterravam exigindo
redobrado esforço muscular.
Um pouco mais à frente surgiu um braço de ria, na altura com pouca água por ser
baixa-mar, com o indispensável e habitual lodo e tarrafe. Para atravessar, bem
no fundo daquela vala, um tronco de árvore já muito gasto pelo uso e que só
permitia passagem na maré vazia. Devido a esse inconveniente, mais tarde,
juntamente com os fuzileiros, cortámos alguns troncos de palmeira – abundantes
nas margens desse e de outros cursos de água – e com eles foi improvisada uma
ponte que permitia a passagem a qualquer hora. Mais tarde ainda, essa ponte foi
substituída por outra construída por pessoal da Engenharia com tubos de andaime
e madeira.
Atravessado sem percalços este obstáculo natural, eis – nos na extensa bolanha
que se estende até Cauane e à mata de Cachil mais a Norte. Aí, só era possível
andar sobre os estreitos ouriques pelo que lá vamos nós em coluna por um (a
célebre "bicha de pirilau", na gíria militar) nada aconselhável em terrenos
descobertos.
Precauções
redobradas, chegada a Cauane festivamente saudada pelos guerrilheiros com
nutrido fogo de PPSH (1) e de outras armas a partir da mata em frente,
distanciada cerca de 200 metros da nossa posição. Felizmente os tiros saíam
muito altos e só o som irritante das chicotadas incomodava.
Instalados em abrigos expeditos cavados no chão arenoso, as tropas montavam
guarda aquele local estratégico por ficar próximo da mata, um pouco elevado, o
que permitia
domínio sobre o terreno circundante. Sob orientação do cmdt. do 8º Dest.Fuz. que
aí se encontrava já há 3 dias, foram-nos indicadas as nossas posições. Cavamos
abrigos, o que não foi difícil, o terreno era mole, ficando uma equipa em cada
abrigo. Sempre em mente o princípio sagrado de nunca se separarem os elementos
de uma equipa.
A tabanca de Cauane, bem como as restantes, estava praticamente destruída assim
como a casa do comerciante Brandão, ali bem próxima. Meses antes, já a aviação
havia actuado na ilha bombardeando e destruindo todas as instalações que
pudessem ser proveitosas ao IN. Recordo-me ainda de assistir no QG em Santa
Luzia, onde ocasionalmente me encontrava, aos protestos do referido Brandão por
lhe terem escavacado tudo quanto possuía no Como.
Mesmo em ruínas, as palhotas de Cauane foram úteis para guardar muito do nosso
material e sempre proporcionavam alguma sombra. Junto a uma das casas, foi
colocado um tosco mastro, bem alto, onde flutuava orgulhosamente a bandeira
nacional. Creio que tal “provocação” irritava os guerrilheiros que para lá
disparavam longas rajadas de metralhadora, sensivelmente de hora a hora. Nós, ao
fim de algum tempo habituámo-nos ao festival e até já sabíamos que horas eram,
sem necessidade de consultar o relógio. Bastava contar as rajadas. As munições
que assim gastaram, e foram milhares delas, (nós nem respondíamos) nunca
atingiram o pessoal instalado na tabanca de Cauane. Milagre ou falta de
pontaria. Ou ambas as coisas.
No dia 20 de Janeiro de 1964, o 8º Dest. Fuz. Esp. saiu para uma incursão na
mata entre Cauane e S. Nicolau. Como era de esperar, um numeroso grupo estimado
em cerca de 100 guerrilheiros nos quais foram referenciados alguns brancos e
caboverdeanos, recebeu-os com nutrido fogo que durou aproximadamente 2 horas.
Devido à gravidade da situação, saímos em reforço. A distância não era grande e
rapidamente chegamos ao combate que estava mesmo feroz. Os guerrilheiros não
paravam o fogo. Escondidos na densa mata, eram alvos difíceis de atingir.
Progredindo por lanços, de árvore em árvore ou qualquer pequena elevação de
terreno que nos protegesse, fomos tentando a aproximação à mata onde se
encontrava o in. Impossível.
O terreno até lá era descoberto e as metralhadoras
varriam tudo. Perto de mim, um fuzileiro, temerariamente em terreno descoberto,
fazia fogo. Quando reparei e lhe gritava para sair dali e se abrigar, só o vi a
virar-se de barriga para o ar e ali ficou atingido com um tiro na cabeça. Fiz um
disparo com o lança-roquetes (a minha arma, além da indispensável G3) para
quebrar o ímpeto do IN e permitir que fosse socorrido. Resultou, e alguns
elementos dos fuzileiros foram buscá - lo. Estava morto.
(Nota: apresentamos no fim deste texto, um outro um
texto de autoria do comandante dos fuzileiros que esteve envolvido na acção
descrita anteriormente, o comandante do Destacamento de Fuzileiros 8, Alpoim
Calvão).
Guiné
> Ilha do Como > 1964 >
Na tabanca de Cauane, após a acção descrita. Estou eu, (de óculos) encostado
a uma palhota, visivelmente cansado. A meu lado, a comer uma bolacha da ração de
combate - não havia mais nada - o 1º cabo fotocine Raimundo que estava destacado
pelo QG a fim de fazer a cobertura da operação, e que se juntou ao nosso grupo
nunca mais deixando de nos acompanhar.
© Mário Dias
(2005)
Nada a fazer. Tivemos que ordenadamente retirar e regressar às nossas posições
na tabanca de Cauane. Nesta acção, os fuzileiros sofreram 2 mortos e 3 feridos
graves. Dos guerrilheiros não se sabe pois ninguém conseguiu lá chegar e
verificar o que entre eles se passou.
O PAIGC estava a opor grande resistência. Foi necessária a ajuda da aviação e
artilharia para que aos poucos se fosse tornando possível a nossa progressão
para o interior do Como. Recordo algumas noites em que nos era recomendado não
acender fogueiras, nem sequer cigarros, pois os P2V5 vinham (à socapa pois eram
da NATO) bombardear a mata. As explosões eram tão fortes que o chão onde
estávamos deitados estremecia.
Durante o dia actuavam os F86 e T6 bombardeando e metralhando todos os
movimentos que detectassem.
Uma noite, não sei se numa atitude provocatória ou se por terem frio, acenderam
uma enorme fogueira mesmo na orla da mata à nossa frente. Via-se nitidamente a
passagem de silhuetas humanos à sua volta. O cmdt. dos fuzileiros (1º Ten.
Alpoim Calvão) chamou o Saco, apontador da instalaza (lança granadas
foguete, como a nossa bazuca - aportuguesemos a palavra - mas com
algumas diferenças: era de cor cinzenta, metalizada, com um óculo de pontaria
mais perfeito e tinha um escudo para protecção do apontador.)
Chegou o Saco - engraçado como os fuzileiros tinham quase todos nomes de guerra
pelos quais se chamavam! Era o Régua, o Setúbal, o Pistas, o Sono e outros que
de momento já não recordo - e, municiada a arma, colocou-se de joelho em terra
fazendo cuidadosa pontaria. Pum … lá vai ela. Segundos depois um tremendo
estoiro. Então onde está a fogueira? Desapareceu. A granada acertou bem no meio
e o sopro encarregou-se de a apagar. Nunca mais acenderam outra.
Um dos pontos que pretendíamos dominar era a picada que, partindo das imediações
da casa Brandão, seguia para Norte em direcção a Cassaca e Cachil. Tarefa
difícil pois o inimigo tinha instaladas à entrada da mata metralhadoras no
enfiamento da picada. No dia 23 o grupo de comandos reforçado com uma secção da
CCAV 488 e uma secção de fuzileiros dirigiu-se ao local para tentar alcançar e
destruir as metralhadoras. Escondidos na casa Brandão, fomos progredindo de um e
outro lado do ourique. Porém, ao chegarmos junto ao rio que atravessa a bolanha
tínhamos que subir para o ourique e passar por umas tábuas que faziam de ponte.
Como era de esperar, as metralhadoras entraram em funcionamento. Zás. Tudo a
saltar de novo para o desnível do ourique.
E agora? Não podíamos prosseguir na relativa segurança de “encostados ao raio do
ourique” porque as margens do pequeno rio e a bolanha que seguia até à mata
estavam muito alagadas e eram lodosas. Nova tentativa e novas rajadas.
Respondíamos ao fogo mas eles estavam abrigados e escondidos e nós a descoberto.
Vantagem deles.
Chamou-se o apoio aéreo que não tardou. Dois F86 metralharam a zona de onde
partiam as rajadas. Depois de algumas passagens, foram embora e ficou um T6.
Largou as bombas. Subiu e rasou o solo metralhando. Subiu de novo e metralhou.
Ao ganhar altura, ouviram-se gritos de júbilo na mata. Virou à esquerda e
desapareceu da nossa vista. Pensei: bom, deve ter acabado as munições ou ter
pouco combustível e foi-se embora. Vamos lá, que já devem ter ”amochado”. Qual
quê? Tudo como dantes. Rajadas e mais rajadas que não deixavam sequer levantar a
cabeça. Feita uma rápida avaliação, concluiu-se que daquela forma era
impossível. Teríamos que voltar de noite ou madrugada para que não nos vissem e
assim ser possível chegar às posições que defendiam à entrada da mata.
Quando estávamos a iniciar o regresso, surge ao nosso encontro o cmdt dos
fuzileiros com mais homens do seu destacamento que nos pediu para o
acompanharmos pois o avião T6 que nos apoiava tinha sido abatido. Percebi então
o porquê dos gritos que os guerrilheiros tinham soltado. Rapidamente chegámos ao
local, que não era longe, e deparámos com a avião ainda a fumegar, embora não
totalmente ardido. Carbonizado, sim, estava no chão o corpo do infeliz piloto,
alferes Pité, que encontrou a morte ao tentar proteger-nos. Ainda hoje me
emociono ao lembrar este triste acontecimento. O corpo foi recuperado, o avião
destruído com explosivos e nós regressamos a Cauane tentando esquecer.
O pior era a alimentação. 23 dias seguidos a ração de combate. Quem passou por
isso poderá imaginar os problemas de saúde que isso causa pois ao fim de algum
tempo já estamos enjoados e não conseguimos engolir nada. O corpo ressentia-se
do esforço diário e ficámos debilitados. Água também era pouca pois só havia a
que vinha de Bissau em barcaças. Mas um dia, o pessoal da minha equipa conseguiu
cozinhar. Que luxo!... Juntámos os pacotinhos de canja que vinham nas rações e,
com um pouco de arroz que desencantámos numa palhota, fizemos uma bela canja.
Maravilha, sopinha de canja bem quentinha. Fomos para o nosso buraco com a
preciosa iguaria numa marmita. Não sei já quem foi, mas um comensal mais
apressado, com a “fussanga” de meter a colher, entornou a marmita. Sopa
espalhada no pano de tenda que, por ser impermeável graças ao muito óleo e
sujidade acumulados, reteve a abençoada canja. Pois foi mesmo do pano de tenda
que foi comida e saboreada. Há muito tempo que nada me sabia assim tão bem.
As acções continuavam e começou a notar-se um certo fraquejar nas hostes do
PAIGC, submetidos a um permanente assédio, não só pelos que estavam em Cauane
mas também os de Curcô, Cachil e Uncomene sem contar com a aviação e artilharia
entretanto instalada na base logística. E foi assim que em 26, de manhã, o grupo
de comandos conseguiu entrar na mata junto de Cauane. Passámos pelo local onde,
no combate em que participámos em auxílio dos fuzileiros, o inimigo teve a sua
força instalada. Sem novidade. Continuámos a internar-nos na mata em direcção a
S. Nicolau.
Mais à frente fomos atacados. A nossa reacção foi imediata e provocámos 3 mortos
aos guerrilheiros que retiraram. Estava quebrado o mito de que não era possível
entrar naquela mata. A partir desse momento, as nossas tropas não mais foram
impedidas nas suas iniciativas atacantes.
Nesse dia, à tarde, fomos mandados regressar à Base Logística que passou a ser a
nossa “morada” durante o resto da Op Tridente.
Aqui é que se está bem. Não somos “fogachados”, não precisamos de fazer
sentinelas nem vigia durante a noite e, ainda melhor, podemos tomar banho no
mar.
Era esta a opinião geral. Para o conforto ser completo faltava-nos material para
construir barracas que não tínhamos e improvisar camas na areia da praia. Numa
das minhas deambulações de reconhecimento do local, encontrei na mata de
palmeiras que bordejava a praia, um enorme acampamento abandonado, pelos vistos
à pressa, pois estava repleto de inúmeros daqueles panos que usam na Guiné como
vestuário. Lavadinhos, a cheirar a sabão e, espanto!...passados a ferro. Tudo
muito bem arrumado, chão varrido, dava gosto andar por ali. Nem sequer faltavam
galinhas que lá ficaram, nem tiveram tempo de as levar.
Era mesmo o que eu precisava. Trouxe alguns panos para fazer uma barraca e me
servirem de vestuário de "turista". A palha da cobertura das casas de mato, que
eram muito baixas, serviu às mil maravilhas para improvisar um belo colchão.
Alguns trouxeram mesmo catres para dormir. Quanto às galinhas, foram servindo de
alimento para quebrar a monotonia das rações de combate. Mas tudo tem o seu
preço. Onde há galinhas e areia, há matacanhas que não tardaram a fazer
estragos. Poucos de nós se livraram delas e, diariamente, tínhamos que passar
revista aos pés e proceder à sua extracção. A média diária era de 8 ou 10.
A Base Logística onde também funcionava o posto de comando, estava ampliada e
melhorada. Pousavam lá os aviões ligeiros (Auster e Dornier) bem como
helicópteros desde que a maré não estivesse totalmente cheia. A areia molhada
formava uma excelente pista de aterragem. Também já lá estavam duas bocas de
fogo de obus 8,8cm, comandadas pelo Alf Mil Carvalinho, exímio tocador de
guitarra e igualmente exímio tocador de garrafa de cerveja que nunca abandonava.
Uma tarde, depois de almoço, estava eu a descansar um pouco e ouvi um tiro de
obus.
Fui ver. O Alf Carvalinho, de calções, tronco nu, indispensável cerveja na mão,
alguns passos atrás das peças ia ordenando ao apontador:
- Pá, levanta um bocadinho… não, foi demais, baixa… um pouco para a direita…
está bom. Fogo!
E a granada partiu rumo ao seu destino. Salta de lá o Tenente-coronel Cavaleiro:
- Ó Carvalinho, você ainda me mata algum homem, temos tropas na mata.
- Calma meu Tenente coronel, isto vai ter aonde eu quero . - E continuou:
- Eh pá, baixa um pouco… está bom. Fogo! - E foi assim até disparar 4 granadas.
Acercando-me dele perguntei:
- Meu alferes, para onde foram esses tiros? - Mostrando-me a carta indicou:
- Para o cruzamento destes caminhos. - E apontou um cruzamento de um caminho com
a picada de Cassaca.
Não é que, alguns dias depois, ao passar pelo referido local, lá estavam, muito
próximos uns dos outros, os 4 impactos das granadas?!
Uma tarde, interrogavam um prisioneiro na tenda de campanha que servia de posto
de comando/sala de operações. Perguntavam-lhe:
- Onde está o Nino?
Era um dos objectivos a que a operação se propunha. A captura do Nino era
essencial.
Resposta do prisioneiro:
- Foi no chão francês (Guiné Conacri) buscar morteiro.
Gargalhada de um dos oficiais de alta patente presentes:
- Agora… pode lá ser?!.. Estes gajos alguma vez têm capacidade para manobrar um
morteiro?
Ainda não tinha decorrido uma semana e já a CCAV 488 instalada em Cauane estava
a levar com eles. Era noite e 4 granadas de morteiro caíram com grande estrondo
nas imediações da tabanca. Não houve feridos nem estragos. Vim a saber o motivo
alguns dias depois quando, ao passar por lá, me mostraram as granadas. Observei
e não foi difícil concluir que se tratava de granadas de instrução ou talvez já
muito velhas e com perda do poder explosivo. O corpo das granadas estava
simplesmente aberto, mas inteiro, sem ter provocado qualquer fragmentação ou
estilhaço. Pareciam bananas descascadas. Ainda bem.
Foram as primeiras “morteiradas” na guerra da Guiné. Ainda durante o resto do
tempo que durou a Op Tridente, foram referenciados mais alguns ataques de
morteiro, sempre sem consequências para as NT.
A batalha continuava. No dia 28 à meia-noite saímos com o pelotão de
paraquedistas em direcção de Cauane para montar emboscadas num poço de água
existente na picada Cauane/Cassaca. Passado o ourique de triste memória onde
dias antes fora abatido o T6, entramos na mata e nada, nem ao menos um tiro de
sentinela a avisar da nossa presença. Progredimos mais e chegados à zona do poço
instalámo-nos a aguardar a comparência dos guerrilheiros. Não compareceram para
a festa que lhes estava preparada.
Pelas 17 horas de 29 regressámos à base (espera praia, já aí vamos) sem ter
havido qualquer contacto nem sinal de actividade do inimigo.
Em 4 de Fevereiro, em mais uma incursão na mata de Cauane, o grupo de comandos
ficou emboscado após a retirada das outras forças (CCAV 489). Surpreendemos
elementos avançados do IN a quem provocámos 3 feridos. (Não sei se terão morrido
mais tarde.)
Boas notícias. Vamos passar a ter uma refeição quente por dia: o almoço. Já não
era sem tempo. Como estávamos instalados junto ao 8º Dest de Fuzileiros com quem
nos dávamos extraordinariamente bem, tanto no aspecto operacional como no
convívio diário, resolvemos também “juntar os trapinhos” na confecção da comida.
À vez, à volta dos caldeiros de campanha, armados em cozinheiros, lá íamos
mostrando os nossos dotes. E, acreditem, tudo correu maravilhosamente. E nem
sequer faltava marisco para petiscarmos. Quando a maré vazava e não estavamos em
operações, era só ir até à linha de baixa-mar onde colhíamos grandes quantidades
de combé que por lá abundava. Para quem não conhecer,
combé é
um bivalve parecido com o berbigão mas muito maior e de casca bastante grossa.
Uma delícia. Atendendo à situação, claro.
No dia 6 de Fevereiro, o grupo de comandos com pelotão de paraquedistas,
embarcou na LDM (2) ao fim da tarde com destino a Curcô para, a partir desse
local atingir Cachida tentando surpreender o In. pela retaguarda. Chegamos a
Curcô onde estava instalada a CCAV 489. Aí pernoitámos, aguardando a madrugada
para iniciar a progressão.
Talvez o nosso amigo Joaquim Ganhão (3), que lá esteve, se recorde desta nossa
passagem.
Madrugada. Antes do dia romper, verificação cuidadosa do armamento, equipamento,
munições… os cantis estão cheios? Tudo em ordem?
Partimos, em silêncio como convinha, e embrenhámo-nos na mata. Olhos e ouvidos
atentos, mão firme nas armas, prontos a reagir. Tudo vimos com cuidado,
explorando indícios e tentando descobrir onde se acoitavam. Trilhos bem pisados
pelo uso, mas as poucas palhotas que fomos encontrando estavam abandonadas,
algumas recentemente, outras há semanas. Contacto, nenhum. Nem vê-los. De vez em
quando soava um tiro isolado, talvez de aviso, e nada mais. Ao fim da manhã
atingimos Cachida, que se encontrava abandonada, e derivámos em direcção à
picada que liga Cassaca a Cachil.
Desde a manhã que nessa zona da mata de Cachil o 7º Dest de Fuz. estava fixado
por um grupo de cerca de 50 guerrilheiros, bem armados e municiados, que os
flagelava a partir da orla da mata de Cassaca. Uma secção dos fuz. chegou a
estar isolada e cercada cerca de 45 minutos.
Conseguimos chegar ao local e detectamos a retaguarda do In. que atacámos
causando-lhes baixas. Como a reacção não foi grande, deduzimos - ingenuamente
como em breve viríamos a verificar - que se tinham posto em fuga e iniciámos a
travessia de uma zona descampada, lisa como um campo de futebol e de capim muito
rasteiro, com o intuito de nos juntarmos aos fuzileiros que nos aguardavam do
outro lado. Ainda não íamos a meio quando estalou a fuzilaria vinda de um ponto
mais a oeste da orla da mata que acabávamos de deixar.
Chão… rebolar…responder ao fogo… procurar alguma abrigo… não há nada, tudo liso
como a careca de um careca. Eles não paravam o fogo, nós também não. Mas
estávamos a descoberto, alvos fáceis.
O alferes Godinho gritando para o Saraiva:
- Porra, que estamos aqui a fazer? Vamos embora. - E fomos. Em lanços, uma
equipa correndo em zigue-zague, as outras cobrindo, a equipa instala-se, outra
se levanta e a ultrapassa, instala-se, outra faz o mesmo e assim conseguimos
percorrer os 200 metros daquela maldita clareira, debaixo de cerrado fogo, sem
qualquer arranhão, juntando-nos aos fuzileiros.
Quando recordo este episódio, lembro-me sempre do logro em que fiz cair um
guerrilheiro e que me salvou a vida. Faltando-me alguns metros para atingir a
orla da mata onde teria abrigo seguro, vi no chão os impactos de uma rajada
mesmo junto aos meus pés. Bom, esta não é à toa, é mesmo apontada para mim. De
imediato, nem sei mesmo como me ocorreu tal estratagema, armei-me em artista de
cinema quando atingido por disparos e, abrindo os braços, mandei um salto
deixando-me cair de costas desamparado. Remédio santo. A rajada que me era
dirigida parou. Fiquei no chão alguns instantes, quietinho, e de repente, ala
que se faz tarde. Alcancei a segurança da mata onde já estavam quase todos os
elementos do grupo. Os restantes não tardaram a juntar-se a nós.
Os paraquedistas tiveram menos sorte. Como vinham atrás de nós, ao ouvir o
tiroteio que nos atingia na clareira, resolveram atravessá-la um pouco mais a
leste. O resultado foi terem demorado mais tempo permitindo a reorganização do
IN que lhes dificultou seriamente a travessia da clareira. Tiveram um morto e um
ferido grave.
Juntas todas as tropas, caminhámos até Cachil, onde estava em construção uma
espécie de quartel para uma companhia que lá ficaria instalada, ocupando e
patrulhando a ilha, uma vez terminada a Op Tridente. Era uma construção
sui
generis pois não passava de uma enorme paliçada feita com troncos de
palmeira a pique para servir de abrigo. Parecia um cenário de filme de índios
contra a cavalaria americana.
No rio esperava-nos uma LDM que nos trouxe de volta à base. Oh praia, lá vamos
nós.
A 17 de Fevereiro, o grupo de comandos recebeu a missão de bater a mata desde o
Norte de Curcô até Cauane. Confirmando a nossa convicção de que os guerrilheiros
do PAIGC estavam a ficar enfraquecidos, não houve oposição à nossa penetração na
mata que, até há pouco tempo, tinha sido um santuário que não deixavam profanar.
Apenas a cerca de 1 km a Norte de S. Nicolau se ouviram dois disparos de
espingarda - código por eles usado para avisar que andava por ali a tropa e se
esconderem. Prosseguimos a nossa patrulha em direcção a Cauane onde,
sensivelmente no local do nosso primeiro contacto com o IN nesta operação
(quando morreram dois fuzileiros), fomos flagelados com alguns tiros de PPSH (3)
e Metralhadora, mais com o propósito de nos manter afastados do que nos
enfrentar. Reagindo, abatemos um elemento IN. Alcançamos Cauane e daí a praia da
Base Logística.
Estávamos de novo “ em casa”.
Dia 23 de Fevereiro novamente embarcados numa LDM com o Pelotão de de
Paraquedistas e 8º Destacamento de Fuzileiros, rumo a Curcô onde pernoitámos.
No dia seguinte, com mais um grupo de combate da CCAV 488, iniciámos uma batida
à mata. Por duas vezes tivemos contacto com um numeroso grupo de guerrilheiros
que dispunham de um morteiro 82 e 1 metralhadora pesada 12,7mm. As NT causaram 7
mortos confirmados, sendo 3 caboverdeanos, armados com pistola-metralhadora,
dois deles fardados de caqui. Nesta acção, o Pel Paraquedistas teve 1 morto, 1
ferido grave e 1 ferido ligeiro. Uma rajada de PPSH inutilizou a arma do
comandante dos páras, que ficou ferido na cabeça.
Quando me recordo, à distância dos anos, do que aconteceu a seguir, dá-me
vontade de rir da cena caricata que devemos ter feito.
Eu conto: tendo nós conseguido sempre levar a melhor nos contactos com o IN, eis
que um enorme enxame de abelhas se abateu sobre nós. Toda a gente a sacudir-se,
ferroadas de criar bicho, correria desenfreada. Quem diria… pequenos insectos
conseguiram aquilo que o IN nunca foi capaz: pôr-nos em fuga. Com o pessoal todo
picado, já havia muitos olhos tumefactos, nada poderíamos fazer a não ser o
regresso a Curcô. Ganharam as abelhas.
Na orla da mata perto de Curcô, ainda descobrimos uma plataforma construída
sobre palafitas, com cerca de 1,80m de altura, e que servia como posto de vigia
sobre aquela localidade. Deixámo-la ficar armadilhada. Não sei se a armadilha
chegou ou não a ser activada. Hoje, faço votos para que não.
Que bem dormia eu quando, naquela madrugada do dia 27 de Fevereiro, “às 4 da
matina” me acordaram:
- Porra… são lá horas de acordar um pacato cidadão embrenhado em sonhos tão
deliciosos!...
- Vamos embora! - Mais uma vez a mata espera por nós. E fomos.
Sol já a brilhar, movimentos suspeitos no tarrafe. Avançámos cautelosamente para
averiguar. Apenas algumas pegadas de 2 ou 3 pessoas que devem ter fugido com a
nossa aproximação.
Nesse dia, juntamente com o Pel Paraq e 1 grupo de combate de elementos das
CCCAV 487 e 489 foi destruída a tabanca de Catabão Segundo onde fizemos um
prisioneiro e apreendemos 2 binóculos, 1 cantil, 1 espingarda G3 com 4
carregadores, e 3 granadas de mão. Mais uma acção em que o IN não deu sinais de
vida.
....
Progressão silenciosa, escondidos, calma, devagar, parar e escutar com
frequência. Sem surpresa é impossível um golpe de mão bem sucedido.
Acampamento atingido e assaltado às 9 horas, praticamente sem resistência (o IN
fugiu). Era constituído por cerca de 50 casas de mato com uma centena de camas
de madeira e de ferro. Viva o luxo!...até havia mosquiteiros, colchões, lençóis,
colchas e outras “mordomias”. Espalhados por diversos locais, máquina de
escrever, máquinas de costura, roupa já confeccionada e peças de tecido, muitos
livros de instrução primária em português, muita correspondência, e os habituais
utensílios de uso doméstico. O acampamento estava rodeado por alguns abrigos e
tinha postos de observação nas árvores.
Incendiadas as casas de mato começou o habitual estoiro de munições e granadas
que ali se encontravam escondidas escapadas à nossa observação.
Nas proximidades estava um cemitério com 30 sepulturas recentes.
Desta acção, realizada no dia 1 de Março, trouxemos para a base (rica praia!): 1
cunhete com 800 cartuchos 7,9; 80 cartuchos 7,62; muitas munições de diversos
calibres; 1 granada de mão incendiária; 1 cantil USA; catanas.
Aos poucos, a forte resistência inicial do PAIGC vai caindo por terra. Mostram
já sinais evidentes da falta de agressividade, que é parte da doutrina da
guerrilha: “ataca quando o IN está fraco; esconde-te se ele é mais forte”.
Mensagem de Nino aos seus guerrilheiros em poder de um prisioneiro por nós
capturado:
“Hoje faz 48 dias que os nossos camaradas estão enfrentando corajosamente as
forças inimigas. Camaradas, tenham paciência, porque não tenho outra safa senão
o vosso auxílio… As tropas estão a aumentar cada vez mais as suas
forças…camaradas, não tenho mais nada a dizer-vos, somente posso dizer-vos que
de um dia para o outro vamos ficar sem a população e sem os nossos
guerrilheiros. Já estamos a contar com as baixas de 23 camaradas… do vosso
camarada, Marga - Nino “,
Emboscadas do grupo de comandos na mata de S. Nicolau, na noite de 5 de Março
até à tarde do dia seguinte, mais uma vez os guerrilheiros não compareceram.
Um agrupamento constituído pelo grupo de comandos, 8º Dest. Fuz, e um grupo de
combate da CCAV 489, iniciaram, por volta das 8 da manhã de 12 de Março, uma
acção sobre Catunco Papel e Catunco Balanta a fim de cercar e bater todas a zona
destruindo tudo quanto possa constituir abrigo ou abastecimento para o IN e que
não seja possível recuperar pelas NT.
Cercada a tabanca de Catundo Papel e de seguida Catunco Balanta, foram as casas
revistadas e destruídas, tarefa que demorou quase 5 horas. Foram recuperadas 5
toneladas de arroz; capturado um elemento IN e apreendidas 2 granadas de mão,
livros escolares em português, cadernos, fotografias, facturas, recibos de
imposto indígena, e um envelope endereçado a BIAQUE DEHETHÉ, sendo remetente
MUSSA SAMBU de Conakry.
...
Às 03H30 do dia 16 de Março, chegados a Curcô, aguardamos a aurora pondo-nos a
caminho com a CCAV 489 (-). A missão era bater a mata até Cassca e daí virar a
Sul até Cauane, eliminando ou aprisionando qualquer elemento IN e detectar e
destruir tudo quanto possa oferecer abrigo ou recursos para o IN. Resistência
?...mais uma vez, nada.
Foi encontrado um acampamento com 15 casas de mato. Uma delas bem grande que nos
pareceu ser destinada a reuniões onde estava um molho de panfletos de acção
psicológica das NT, recentemente lançados na ilha pelos nossos aviões. Numa
outra barraca, um caderno de cópias de INÁCIO BATALÉ, datado de 12 de Novembro
de 1963. Nas imediações foram descobertos e destruídos 3 depósitos de arroz,
estimando-se serem cerca de 15 toneladas.
Progredindo para Sul, dentro da mata da região de Cauane, e a cerca de 600
metros da tabanca, detectou-se um grupo de 7 elementos armados de espingarda e
de pistola-metralhadora. Fogo…pum. Dois tiros chegaram e caiu um. Mais dois
tiros e caiu outro armado de PPSH e de farda camuflada. Mais um tiro e outro
ferido que fugiu aos gritos.
Os sobrantes puseram-se em fuga. O inimigo não parecia o mesmo das primeiras
semanas da batalha do Como. Estava de facto enfraquecido e fugia ao contacto.
Com a operação a chegar ao fim previsto, o Comandante das Forças Terrestres, Ten
Cor Cavaleiro, saiu com o grupo de comandos e o pelotão de paraquedistas às
23H30 do dia 20 de Março, atravessando a mata de Cauane, Cassaca e Cachil com a
finalidade de verificar pessoalmente a capacidade de combate do IN.
Passagem e pequena paragem na tabanca de Cauane, troca de informações com o
comandante da CCAV 488, dono da casa, e iniciámos a penetração na mata à 1 hora
do dia 21, partindo da casa Brandão. Reacção do IN?...nenhuma. Progredimos até
Cassaca que foi alcançada às 02H30. Feita uma batida cuidadosa à região,
encontraram-se a Norte algumas casas de mato quase destruídas e há muito
abandonadas.
Siga a tropa. Para a frente é que é o caminho. Já próximo da orla da mata de
Cachil, ao “romper da bela aurora”, detectados 3 elementos IN um armado de PPSH
e os outros dois de espingarda. Meia dúzia de tiros foram suficientes para
fugirem. Um deles, ferido, deixou para trás a espingarda Mauser 7,9mm e 5
cartuchos da mesma. Tinha sangue na coronha.
Mais tarde, outro grupo de 5 elementos, avistados um pouco à distância, foram
alvejados e fugiram sem responder ao nosso fogo. Levaram dois feridos.
Atingimos Cachil, na outra extremidade da ilha, que foi atravessada
pacificamente de Sul para Norte sem qualquer beliscadura nem qualquer oposição à
nossa presença por parte dos guerrilheiros.
Embarcados na LDM, lá fomos nós de regresso à praia. Foi a última operação da
batalha do Como.
Por brincadeira dizíamos que tínhamos ido “fechar as portas da guerra”.
Foram também os últimos banhos.
No dia 22 de Março, o grupo de comandos regressou a Bissau, aproveitando a
boleia da Dornier e alguns hélis que em diversas vagas nos transportaram. O
Grupo de Comandos não teve baixas, nem feridos, nem nenhum elemento evacuado por
doença, fazendo juz ao nosso lema: “Audaces fortuna juvat” (2)
Para as restantes tropas foram mais dois dias de trabalho a “desmontar o
arraial.” Creio que foi o que menos lhes custou.
BAIXAS DE AMBOS OS LADOS
Das NT:
8 Mortos
15 Feridos
Do IN:
76 Mortos (confirmados)
29 Feridos
9 Prisioneiros
CONCLUSÕES
De tudo quanto descrevi, e que corresponde à realidade por mim vivida durante a
Operação Tridente, podemos verificar que nem sempre, ou quase nunca, a história
é escrita com isenção. Na verdade, tem-se especulado muito sobre o que realmente
se passou no Como. Derrota para as tropas portuguesas, dizem uns, grande
vitória, contrapõem outros.
Para mim, nem uma coisa nem outra, porque na guerra, em qualquer guerra, não há
vencedores: todos são vencidos pela existência da própria guerra.
Porém, analisando a Operação Tridente no âmbito estritamente militar, facilmente
se chega à conclusão que:
- O PAIGC dominava a Ilha do Como em 1963;
- Nas primeiras duas semanas opôs feroz resistência às NT, a quem causou baixas,
não
permitindo a nossa progressão pela mata onde estava fortemente instalado;
- Graças à nossa persistência no combate, favorecida pela superioridade de meios
que
na altura ainda tínhamos, fomos aos poucos dominando a situação;
- A partir da 3ª semana já conseguíamos entrar e progredir na mata;
- Sensivelmente na 5ª semana, já nos movimentávamos facilmente por toda a ilha e
os
guerrilheiros opunham esporádica e fraca resistência;
- Começou a notar-se, a partir da 7ª semana, uma completa desagregação da
capacidade de combate dos guerrilheiros: basta ler a mensagem do Nino dirigida
ao
seu pessoal e transcrita nesta crónica;
- No final da operação o PAIGC já não dominava a ilha;
A teoria defendida por alguns, sobretudo pelo PAIGC (mas essa não é de admirar)
que as tropas portuguesas se viram forçadas a abandonar a ilha, não é
verdadeira:
1) As tropas retiraram por ter terminado a operação e não se justificar a sua
continuação uma vez alcançado o objectivo: o domínio da ilha pelas NT;
2) A ilha não foi abandonada pois ficou instalada em Cachil (na tal “fortaleza”
de troncos de palmeira) uma companhia para patrulhar e não deixar que o IN se
reorganizasse naquela região;
3) Se mais tarde se veio a verificar o recrudescer da actividade no local, isso
deve-se ao facto de a Companhia que lá ficou se ter refugiado na “fortaleza”,
nunca de lá saindo a não ser para ir para Catió quando era substituída por outra
(Mas isso, é outra história);
..." (5)
Operação Tridente -
testemunho de Alpoim Calvão

Alpoim Calvão e o seu grupo de combate (4)
"O meu
destacamento entrou na mata para fazer reconhecimento. Tínhamos desembarcado a
14 de Janeiro e esta operação foi a 19. Levei duas secções cerca de 25 homens.
Andámos entre 100 a 150 metros e tivemos um choque frontal com uma força inimiga
que calculei num numero de 60 a 70 homens. Foi um combate que durou 2 horas e
meia. Foi um embate muito forte que me custou dois mortos e cinco feridos -
cheguei a estar a dez metros de distância do inimigo. Tentei fazer um movimento
de envolvimento pela direita, mas faltava-me massa de manobra. Pedi um reforço e
enviaram-me um grupo de comandos - cerca de 20 homens - comandado por um
extraordinário oficial, alferes Maurício Saraiva, e assim já pude fazer a
manobra de envolvimento. Certo é que acabaram por retirar. Comigo estava o chefe
de Estado-Maior da Defesa Marítima da Guiné, um capitão-tenente já com uma certa
idade, Costa Santos. Era raro os altos comandos participarem nas operações, mas
alguns iam, como era o caso deste.
Verificaram-se
actos de extrema bravura, por exemplo quando um dos meus homens, o Botelho, foi
abatido, e o cadáver, que era um trofeu apreciável. Do meu lado, houve gente - o
Abranches Pinto, o sargento André - que, debaixo de fogo, foi buscar o corpo.
O destacamento de
fuzileiros comandado por Alpoim Calvão, o DF8, participa em 25 combates. Os
militares portugueses, na totalidade, sofrem várias baixas - nove mortos e 47
feridos. Um avião T-6 foi abatido, tendo o piloto morrido carbonizado. As
doenças foram um segundo inimigo, obrigando à evacuação de cerca de 200 homens.
Do lado do PAIGC, as baixas foram muito pesadas: 76 mortos confirmados, 15
feridos e nove prisioneiros. No entanto, devido aos bombardeamentos, o número de
baixas deve ter sido maior.
...

Transcrição da
carta de Nino Vieira, interceptada pelas forças militares portuguesas
... " (4)
Publicado no site em 21/05/2006, e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato
Texto do furriel Carlos Fortunato
(1) Fotos do
furriel Carlos Fortunato
(2) Fotos de
Francisco Leiria 1º Cabo Radiotelegrafista e Radarista da Força Aérea
(3) Fotos do
Tenente Coronel da Força Aérea, Miguel Fortunato
(4) Fotos e texto
do livro "Operação Mar Verde - Um documento para a história"
(5) O texto completo de onde foi retirado o extracto
apresentado, pode ser encontrado no blog
http://blogueforanada.blogspot.com/, nas páginas editadas entre 14 e
16/12/2005:
Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias)
14 Dezembro 2005
Guiné 63/74 - CCCLXXV: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): II Parte (Mário Dias)
15 Dezembro 2005
Guiné 63/74 - CCCLXXX: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): III Parte (Mário Dias)
16 Dezembro 2005
(6) Livro "Guerra na Guiné" do coronel Hélio Felgas
Web portal: http://portalguine.com.sapo.pt
Optimizado para 800 x 600
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Design
Carlos Fortunato
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